{"id":1398,"date":"2015-06-09T17:12:00","date_gmt":"2015-06-09T20:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/?p=1398"},"modified":"2025-06-19T11:14:40","modified_gmt":"2025-06-19T14:14:40","slug":"serra-fina-caminhando-pelas-altas-montanhas-da-mantiqueira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/2015\/06\/serra-fina-caminhando-pelas-altas-montanhas-da-mantiqueira\/","title":{"rendered":"Serra Fina, caminhando pelas altas montanhas da Mantiqueira"},"content":{"rendered":"\n<p>A Serra Fina \u00e9 um maci\u00e7o de montanhas que faz parte da Serra da Mantiqueira, tal como o maci\u00e7o de Itatiaia, e re\u00fane algumas das mais altas montanhas do Brasil com uma trilha que cruza seus cumes e cristas, numa altitude m\u00e9dia de 2400m at\u00e9 quase 2800m no ponto mais alto, a Pedra da Mina (2798m), 4\u00aa montanha mais alta do Brasil pela \u00faltimas medi\u00e7\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<p>Ganhou esse nome pois quase sempre se caminha por uma trilha muito estreita na crista das montanhas, acima das nuvens e com temperaturas pr\u00f3ximas ou abaixo de zero. A travessia cl\u00e1ssica \u00e9 de 4 dias e 3 noites, mas pode ser feita em menos tempo. <\/p>\n\n\n\n<p>A prepara\u00e7\u00e3o come\u00e7ou h\u00e1 v\u00e1rios meses pois a Serra Fina ganhou a fama de ser o trekking mais dif\u00edcil do Brasil, sendo totalmente dependente das condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, com poucas fontes de \u00e1gua, muitas subidas e descidas \u00edngremes que totalizam mais de 3 mil metros em cada sentido, com cerca de 30km caminhando-se sobre montanhas, pedras, florestas, muito frio \u00e0 noite, calor e sol forte de dia, um lugar isolado e sem apoio de nenhum tipo, onde temos de ir levando a casa e a comida, al\u00e9m de 5 litros de \u00e1gua em m\u00e9dia. <\/p>\n\n\n\n<p>Subi in\u00fameras vezes do Cosme Velho ao Corcovado para treinar. Estudei muitos relatos e v\u00eddeos, fizemos uma estrat\u00e9gia e o plano B, caso algo desse errado. Reunimos amigos e amigas, e marcamos o feriado de Corpus Christi para subir a montanha. <\/p>\n\n\n\n<p>Fomos de carro at\u00e9 Passa Quatro, MG, onde contratamos o transporte 4&#215;4 para nos levar at\u00e9 a Toca do Lobo via uma estradinha de terra e depois o resgate no munic\u00edpio de Itamonte, na BR-354, perto da Garganta do Registro. <\/p>\n\n\n\n<p>Como a lei de Murphy \u00e9 real e se algo pode dar errado, vai dar, deu&#8230; Sa\u00edmos muito tarde do Rio e chegamos na Toca do Lobo 2h da madrugada, ao inv\u00e9s das 23h, o que nos permitiria dormir antes do trekking. Com tudo atrasado, resolvemos come\u00e7ar de noite, com a lua cheia, e as 3h20 iniciamos a subida \u00edngreme sem dormir. <\/p>\n\n\n\n<p>O \u00e2nimo era grande e a lua nos iluminava o caminho. Vimos o alvorecer e os primeiros raios de sol sobre as nuvens. Foi espetacular e \u00e1rduo! Chegamos de tarde, bem cansados, aos 2491m no alto do pico do Capim Amarelo, numa vista deslumbrante, onde logo depois de uma descida escorregadia de mais de 100m pelo bambuzal, procuramos local para dormir no meio de capinzais de quase 2 metros de altura. <\/p>\n\n\n\n<p>Como era um feriad\u00e3o, quase todos os locais de acampamento j\u00e1 estavam cheios, com centenas de montanhistas al\u00e9m das ag\u00eancias que se antecipam ocupando os melhores locais para seus clientes. <\/p>\n\n\n\n<p>Acordamos muito cedo e havia gelo no sobre-teto de algumas barracas. Depois do caf\u00e9 da manh\u00e3 partimos para o pr\u00f3ximo destino, a Pedra da Mina. <\/p>\n\n\n\n<p>Montanha ap\u00f3s montanha, entrando pelos matagais, chegamos nela ainda de dia mas com as nuvens j\u00e1 encobrindo e o frio e vento aumentando, e nenhuma visibilidade. Como n\u00e3o havia lugar para acampar no cume descemos pelo outro lado para um local mais protegido para dormir e jantar, sem antes deixar o registro escrito no livro do cume, que fica guardado numa caixa met\u00e1lica. <\/p>\n\n\n\n<p>Foi mais uma noite muito fria e dormimos cedo pois o destino seguinte seria o Pico dos Tr\u00eas Estados (2665m). No terceiro dia passamos pelo vale do Ruah, uma floresta de enormes capinzais cortantes e pontudos (Cortaderia sp) num solo negro e parte pantanoso, onde encontramos a nossa \u00faltima fonte de \u00e1gua at\u00e9 a tarde do dia seguinte. <\/p>\n\n\n\n<p>Por recomenda\u00e7\u00e3o de outro montanhista, pernoitamos num bambuzal antes do pico dos 3 Estados, protegidos do vento para acordar as 3h e iniciar a subida ao cume ainda de noite e ver o amanhecer na \u00faltima noite. Muitos fizeram como n\u00f3s e outros j\u00e1 estavam acampados no cume coberto de capins altos. <\/p>\n\n\n\n<p>Nesse dia senti o maior frio de toda a travessia, com as m\u00e3os semi-congeladas e luvas rasgadas pelas plantas, temendo entrar em hipotermia ficamos fotografando o bel\u00edssimo nascer do sol atr\u00e1s do maci\u00e7o de Itatiaia, do pico das Agulhas Negras e das Prateleiras. <\/p>\n\n\n\n<p>Dali em diante seria a longa descida at\u00e9 a BR-354, onde estaria nos esperando nosso resgate. Haviam dezenas de montanhistas, todos famintos, esperando o mesmo resgate que foi insuficiente, e tivemos de buscar os carros com parte do grupo esperando. <\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, segundo dia seguinte ao retorno, os m\u00fasculos ainda est\u00e3o um pouco doloridos, algumas bolhas em carne viva nos p\u00e9s j\u00e1 est\u00e3o fechando, cortes nos dedos e nas pernas cicatrizando, mas a sensa\u00e7\u00e3o de estar de corpo limpo ap\u00f3s 4 dias sem banho e com a mesma roupa, e de acordar numa cama sem sentir a temperatura abaixo de zero&#8230; \u00e9 mesmo uma sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio, mas tamb\u00e9m de algo que aconteceu muito forte e intenso, que foi fugaz aquela eternidade de 4 dias e 3 noites, e ainda muito recentes as marcas deixadas de uma t\u00e3o distante realidade em rela\u00e7\u00e3o ao nosso quotidiano, que nos faz sentir uma perda e saudade \u2764de cada momento, de cada desafio, de cada sofrimento e alegria, de cada vista dos magn\u00edficos cen\u00e1rios naturais que nunca veremos iguais em outro lugar, e com a sensa\u00e7\u00e3o de supera\u00e7\u00e3o e vit\u00f3ria, h\u00e1 um desejo incipiente que clama: quero voltar! <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma aventura para ser feita cuidadosamente e onde nada deve dar errado pois estamos a todo instante vivendo nosso limite e supera\u00e7\u00e3o, seja caminhando ou escalaminhando perto de abismos e ribanceiras, ou cruzando labirintos em enormes matagais cujas folhas finas, resistentes e afiadas cortam e espetam sangrando nossa carne, e chegam at\u00e9 2 metros de altura fazendo-nos desaparecer por inteiro dentro deles, ou quando caminhamos na floresta que parece um sem fim de bambuzais que nos enroscam arranhando o tempo todo, rasgando nossas roupas como que querendo impedir nossa passagem, ou quando uma nuvem surge em instantes e cobre tudo e de repente nada mais vemos ou sentimos, al\u00e9m do frio abaixo de zero e o vento g\u00e9lido e cortante&#8230; <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tudo parte de uma bel\u00edssima natureza, que \u00e9 hostil somente se n\u00e3o estivermos preparados. Mas, acima de tudo, \u00e9 maravilhosa em tudo que nos apresenta.\u263a Essa \u00e9 um pouco da emo\u00e7\u00e3o sentida ao fazer a travessia da Serra Fina, caminhando quil\u00f4metros somente pelas cristas e cumes, de montanha ap\u00f3s montanha, mais de 20 entre montanhas, morros e morretes, das mais altas da Serra da Mantiqueira, incluindo duas das mais altas do Brasil, o pico da Pedra da Mina e o pico dos Tr\u00eas Estados. Talvez seja para poucos mas com certeza pode ser para muitos ou para todos os que se prepararem adequadamente. <\/p>\n\n\n\n<p>Agora estou certo de que n\u00e3o \u00e9 a mais dif\u00edcil do Brasil, mas uma das que exige muito planejamento e prepara\u00e7\u00e3o. H\u00e1, inclusive, a possibilidade de contratar um &#8220;sherpa&#8221;, um carregador que leva tudo para vc caminhar bem leve ao inv\u00e9s dos quase 18 quilos que tivemos de levar cada um. <\/p>\n\n\n\n<p>Vimos, ao caminhar, de um lado o maci\u00e7o de Itatiaia com as Prateleiras e o Pico das Agulhas Negras, do outro o pico dos Marins e o pico\/morro do Couto. E, no outro lado, o vale do Para\u00edba com suas cidades e a represa do Funil, com a majestosa Serra da Bocaina em frente, a Pedra do Frade e o Pico do Tira Chap\u00e9u e, em sua continua\u00e7\u00e3o, a Serra do Mar. Tudo desde acima das nuvens, alturas que chegam at\u00e9 os 2798 metros. <\/p>\n\n\n\n<p>Companheiras e companheiros de caminhada, valeu!!! Obrigado a todos voc\u00eas por compartilharem estes momentos, mesmo que do grupo inicial alguns n\u00e3o tenham podido ir. Alexandre Barreiros, Ana Paula, Andr\u00e9 Serrano, Camila Coubelle, C\u00edntia Alexandre Rezende, Daniel Vieira Ramos, Jos\u00e9 de Alencar, Leonardo Lima, Luciana, L\u00facio Lima.<\/p>\n\n\n\n<p>Post original: https:\/\/www.facebook.com\/media\/set\/?set=a.10206976004977215&amp;type=3<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/466741021_10235218447220620_3842708909614368823_n.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"512\" data-id=\"1423\" src=\"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/466741021_10235218447220620_3842708909614368823_n.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1423\" 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Bacharel em Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica pela FGV\/RJ, tamb\u00e9m cursou Engenharia Eletr\u00f4nica na PUC\/RJ, mas foi nas trilhas e montanhas que encontrou seu verdadeiro caminho. J\u00e1 subiu diversas vezes nove das dez montanhas mais altas do Brasil, realizou nove expedi\u00e7\u00f5es ao Monte Roraima, tr\u00eas travessias pela Serra Fina em dois dias, quase vinte pela hist\u00f3rica Trilha do Ouro e oito travessias Petr\u00f4-Ter\u00ea em apenas um ou dois dias, e diversas outras pela Am\u00e9rica do Sul.\r\n\r\nNa Amaz\u00f4nia, organizou expedi\u00e7\u00f5es independentes ao Pico da Neblina, Monte Cabura\u00ed, Serra do Arac\u00e1, Parque do Ja\u00fa e outros destinos pouco explorados. Atualmente, conduz o projeto Quatro Extremos do Brasil, que une aventura e registro cultural, relevando os povos origin\u00e1rios e ancestrais que vivem nos pontos mais distantes, Sul, Norte, Oeste e Leste, do territ\u00f3rio nacional. Al\u00e9m das expedi\u00e7\u00f5es, foi produtor executivo de cinema, editor de jornais e revistas, fundou e presidiu associa\u00e7\u00f5es e empresas. Associado do <a href=\"https:\/\/www.ceb.org.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> CEB<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.cerj.org.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> CERJ<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.carioca.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> CEC<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.ceubrasil.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> CEU<\/a>, foi membro do <a href=\"https:\/\/www.guanabara.org.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> CEG<\/a> e da <a href=\"https:\/\/feemerj.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> FEMERJ<\/a>, associa\u00e7\u00f5es de montanhismo do RJ e SP. \u00c9 um defensor das causas ind\u00edgenas, sociais e ambientais.\r\n"}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1398","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1398"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1398\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1446,"href":"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1398\/revisions\/1446"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1402"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1398"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1398"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1398"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.montanhas.eco.br\/w\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=1398"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}