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As montanhas guardam o cume da nossa imaginação.

A história da Anita que virou Chico…

Tudo começou na sexta-feira 22/01/2021 de noite, quando um gato miou perto da nossa casinha na Serra da Bocaina, 34 km longe da cidade.

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A primeira foto em 24/01/21

Fazia exatos doze dias que eu e Val, estávamos na Bocaina passando uma temporada, de descanso para minha amiga e para mim a rotina normal de trabalho à distância. Era uma sexta-feira e tínhamos combinado de retornar para o Rio no domingo de manhã. Teríamos voltado uma semana antes se o carro não tivesse tido um problema. Nesse dia combinei com o Dário, meu irmão, que comeríamos uma pizza à noite e no sábado iríamos comer um churrasco de trutas na cachoeira como despedida. O Dário havia acabado de chegar, quando ouvimos um miado. Ele foi o primeiro a avistar um gatinho assustado que havia aparecido miando num choro. Demos leitinho e se acalmou, e sumiu na escuridão. No dia seguinte, na volta da cachoeira, o gatinho estava na casinha, lhe demos novamente comida, pois miava muito, e resolvemos verificar se era menino ou menina… nenhum de nós 3 é um profundo conhecedor de gatos…e, na dúvida, assim pelo jeitão, o felino nos pareceu uma gatinha, muito manhosa e carinhosa… A Val (que adora batizar bichinhos) logo lhe arrumou o nome de Anita, disse ela que pensou nas duas mulheres fortes, a Garibaldi e a Malfatti. E assim ficou, Anita…

O COMEÇO

Tudo começou na sexta-feira 22/01/2021 de noite, quando um gato miou perto da nossa casinha na Serra da Bocaina, 34 km longe da cidade. Até o momento nunca tínhamos visto um gato nessa região isolada da Bocaina, que fica junto ao Parque Nacional. Ela dormiu longe da casa sobre uma pedra perto do mato, foi uma noite estrelada. 

Era o nosso último fim de semana na Bocaina. A Anita se mostrava livre e solta, entrava na mata com tranquilidade e perspicácia, como se fosse seu refúgio. No domingo voltamos cedo para o Rio de Janeiro.

Vinte dias depois retornei para a Bocaina, agora com uma das amigas que compartilham a casinha da montanha. Depois de um tempo a Anita apareceu.

Ela não estava muito magra, sinal que tem conseguido alimentos… Já vi ela caçando dentro da mata… Nessa região da Bocaina não tem gatos domésticos a não ser alguns felinos selvagens que circulam por ali (jaguatiricas e onças), outros animais silvestres e cães em alguns sítios… Cerca de 1 km antes da nossa casinha existe um gato de um morador… Mas no entorno é só floresta.

A Anita é muito carinhosa, sinal que já foi bem cuidada por alguém que a gostava… Soubemos que é vista faz vários meses perambulando pela região… Ela é muito assustada por tudo, se fazemos um movimento brusco ou som alto ela dá um salto, já deve ter passado bons sustos ou perseguidas… 

Enviei fotos para vários moradores da região perguntando se sabiam de onde era.

Alguns disseram que pode ter se extraviado de algum turista ou mesmo ter sido abandonada propositalmente, ninguém sabe. Isso já aconteceu. Coloquei um anúncio com fotos nas redes sociais de Bananal… Algumas pessoas compartilharam.

HOSTILIDADE

As pessoas da região da Bocaina onde estamos não gostam de gatos, jogam pedras neles, as pessoas se incomodam com eles. Um morador que tem galinhas e outras aves me disse que se aparecer um gato por lá vai matá-lo a tiros porque os gatos pegam os pintinhos … A esposa dele me disse que gato não bota ovos, não serve para nada, só dá trabalho… Outro morador disse que odeia gatos pois eles caçam os pequenos animais… Em outro sítio tem rottvaillers e labradores, se aparecer um gato por lá será estraçalhado…

Se aproximou para se alimentar
O primeiro que demos foi leite de bufala

Enfim, aqui nesta região especificamente tudo é um pouco hostil para a Anita… Isso me motivou a não abandoná-la e conseguir alguém que a adote e cuide. 

Nos anos 90 e até o final da primeira década de 2000 mantive um site de apoio aos animais abandonados e vítimas do ser humano, cães, gatos, equinos, aves, etc. , apoiando a iniciativa de umas pessoas que dedicavam sua vida a protegê-los, com apoio de veterinários, todos num trabalho voluntário. Se chamava o Abrigo do Melhor Amigo do Homem e ficava neste endereço www.amigodohomem.com.br

Minha amiga Val, que encontrou a Anita comigo, gostou dela mas nunca teve gato em apartamento, além do que achamos que a Anita teria dificuldade em se adaptar num apartamento pois está acostumada a ficar livre…  numa noite fria e chuvosa a levei ao quarto, fechando as portas e janelas, mas ela ficou inquieta, nervosa, e quando abri a janela ela correu e pulou na escuridão e na chuva, para a sua liberdade… 

Nessa conjuntura hostil para a Anita não poderia mais abandoná-la e sim cuida-la até encontrar um local seguro para ela. Fiz vários anúncios, alguém haveria de aparecer para adotá-la… e talvez vacinar, castrar(?)… Mas não tinha como levá-la no carro pois não tenho caixa de transporte de gatos…

Queria mesmo encontrar alguém que a ame e cuide e me dispus a ajudar financeiramente a quem ficasse com ela… 

MAUS TRATOS

Das mensagens que mandei aos moradores da região acabei descobrindo a história dela… Uma pessoa a conhecia e fez contato.

Foi um filhote que pertenceu a uma pessoa que não quis mais e deu para outro que tinha um filho que gostava, mas depois não o quiseram e deram para uma terceira pessoa que tem um sítio na região do sertão da Bocaina e mora numa cidade do vale do Paraíba. Mas ele só vai lá uma vez por mês, está vendendo o sítio. Consegui o telefone dele e fiz contato para devolver seu gato perdido.

Nos contou que não é uma fêmea, mas um gato macho castrado, com parte de sua genitália estirpada, por isso não conseguimos identificar o gênero. E que o nome do gato é Chico, disse. E que podemos ficar com o gato, pois ele não quer mais. Então a Anita virou Chico.

Procurei saber se já foi vacinado, etc. Soube que um dos que ficou com o gato o castrou na faca, manualmente … Deve ter sido traumático pois ele não é veterinário, é um caboclo, carniceiro… o Chico tem pênis, ânus mas não tem testículos! 

Me contaram que foi castrado sem anestesia. Colocaram o gato dentro de um saco de estopa, imobilizado e com os testículos à vista. Então, ele cortou o saco e arrancou as duas bolinhas de dentro. O gato gritou, ficou desesperado, sangrando e se lambendo até sarar sozinho, por uma semana inteira.

Me contaram também que o gato foi castigado levando várias vassouradas por algo que fez, quase morreu dentro da casa mas que conseguiu fugir… 

O gato passou a ficar longe desde então… Pela fome e abandono o Chico aprendeu a conseguir comida, talvez caçando pequenos animais para se alimentar, como fazem os felinos. E se tornou assustado e desconfiado. Qualquer movimento brusco ou barulho faz ele saltar… Ficou dormindo na floresta e perambulando pela região. 

Existem outras histórias muito tristes do tratamento dos animais da Bocaina, parecidas nas diversas regiões rurais do Brasil, em geral sempre de maus tratos. Os animais não são vistos com respeito ou como de estimação, são animais para dar lucro, dar retorno em algo, a maioria os vêem assim. Se não retorna algo, descartam. Animais não tem direitos, são mercadoria, são produto, objeto, esse é o pensamento predominante.

FINALMENTE UM LAR

Acabei encontrando uma pessoa que gosta de gatos e aceitou adotá-lo. Eles vão ficar com o Chico pois já tem outros gatos, cães, cavalos e bois, todos vivendo em harmonia num sítio. Gostam dos animais e cuidam, que é mais importante do que somente gostar.

GOSTAR DOS ANIMAIS
Muitos declaram que gostam dos animais. Mas gostar é pouco para quem realmente ama os animais. Quase sempre são vítimas da ação do ser humano sobre a natureza, porém todos temos uma responsabilidade no local que estamos presentes, não podemos ignorar ou dar as costas para uma situação destrutiva, injusta ou de sofrimento que nos defrontamos ou nos tornamos cúmplices. O conhecimento nos torna responsáveis, penso assim.

Numa terça-feira bem cedo levei o Chico de carro por uns 3km e pouco, até o sítio que seria o novo lar dele. Dei sua comida e fui embora. São um casal e filho, e gostam e cuidam de vários outros animais. Eles colocaram o Chico dentro de um local cercado para que não fuja e se acostume com os outros gatos, que iam lá mas depois todos ficariam soltos. Deram comida e água.

De noite o Chico conseguiu fugir e não o viram mais até o fim da tarde do dia seguinte. Ele estava na mata olhando de longe. Eles foram buscá-lo mas o Chico fugiu floresta a dentro e não foi mais visto. Me avisaram e eu fui até lá antes de anoitecer e não o encontrei. Entrei na floresta por umas trilhas de animais meio fechadas e nada. Ficou noite e acabei desistindo, acreditando que com a fome ele voltará e lhe darão os cuidados necessários. Se passaram 3 dias e noites sem o menor sinal do Chico. Desapareceu. E no fim de semana eu voltaria para o Rio.

Na sexta-feira de madrugada, pelas 5h o Chico conseguiu retornar e miou na minha janela. Veio por mais de 3 km pela floresta ou estrada. Faminto e molhado, mas estava bem. Se aproximou suavemente pedindo carinho, sem lembrar que fui eu quem o levou para longe, abandonado pela quarta vez.

Naquele dia tudo mudou. Conversei com a Val que encontrou o gato comigo e decidimos adotá-lo em regime de guarda compartilhada, ambos cuidaremos dele, daremos um lar para o Chico… Irá ao veterinário, fará os exames necessários e tomará as vacinas que precisa, terá uma vida nova. Será cuidado e protegido.

O Chico trouxe uma nova alegria e responsabilidade na vida da gente, na minha e na da Val. Ficará na casa de um e do outro de tempos em tempos ou quando um precisar viajar. E nunca mais será abandonado!

Então, trouxe-o ao Rio no fim de semana, veio solto no carro, se assustando a cada caminhão que cruzávamos na estrada. Viemos devagar com algumas paradas para que ele se acalme. Não poderia mais deixa-lo abandonado ao seu destino num ambiente tão hostil para um gatinho. 

A história do Chico mudou a partir de agora. E quando voltarmos a Bocaina ele irá conosco… e reencontrara seu habitat e liberdade!

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