MONTANHAS.ECO.BR

As montanhas guardam o cume da nossa imaginação.

A Travessia Latitudinal do Ipaum Guaçu ou Ilha Grande – I

Travessia latitudinal da Ilha Grande é uma travessia entre a Parnaioca e o Saco do Céu passando pela Pedra D'Água, o ponto culminante da ilha

Compartilhar:

1ª parte: a motivação

A mais desafiadora, a mais difícil e também a mais emocionante e sedutora, é sem dúvida a travessia latitudinal do Ipaum-Guaçu, “ilha grande” em tupi-guarani. Essa ideia surgiu alguns anos atrás, quando estava na Parnaioca no Camping do Silvio com mais dois moradores locais e eles contavam uma história antiga. A Parnaioca já foi em décadas passadas, +70 anos, a maior vila da ilha, dizem. No meio do século XX construíram inclusive uma estrada para levar de ônibus os funcionários do presídio de Dois Rios até a Parnaioca. Essa estrada chegava até o barranco de descida final da trilha, já em cima da praia. Os carros, caminhões e pequenos ônibus chegavam ali e manobravam para voltar. Há fotos. Haviam pontes e até um obelisco foi inaugurado com festa. Naquela época, quando o tempo ficava tão ruim que nenhum barco poderia chegar lá via o lado oceânico da ilha, o único jeito que os moradores tinham de ir para o continente era fazendo uma trilha que terminava no Saco do Céu ou Bananal. O Abraão não era tão acessível pois era quase o dobro da distância em trilha. Com o passar dos anos essa trilha Parnaioca-Saco do Céu/Bananal caiu em desuso e a mata a fechou. Havia o contato de um morador antigo e seu filho, talvez os únicos caiçaras vivos que conheceriam a trilha. Eles atualmente moram no Bananal, se ainda estiverem vivos.

A Ilha Grande foi no passado totalmente desmatada e divida em 5 grandes fazendas de cana de açúcar (sec. XVII e XVIII) e de café (sec. XVIII e XIX), onde trabalhavam milhares de escravos. No sec. XX se tornou presídio e surgiu a floresta que conhecemos. Por toda ela encontramos ruínas e objetos ocultos pela floresta. Ipaum Guaçu guarda muitos segredos e mistérios. Por exemplo, há uma casa no meio da floresta de alguém que se isolou do mundo. E descobrimos uma segunda pesquisando milimetricamente nas fotos aéreas.

Fazendo essas pesquisas e contatos, acabamos conhecendo um grupo de amigos que ao invés de fazer a travessia desejavam muito ir ao centro de ilha, na Pedra d’Água, o ponto culminante da ilha com 1.031 metros estimados. De certa forma, eles queriam fazer a metade da trilha que eu desejava fazer. E, pouco a pouco, ampliamos nossos contatos com um outro grupo que queria ir ao centro da ilha, na chamada Serra do Papagaio, onde fica a Pedra d’Água e o pico do Papagaio, para fazer a altimetria do local pois havia uma desconfiança de que um outro pico seria maior que os dois conhecidos. E, isso mudaria os mapas da Ilha Grande, a descoberta de um novo pico mais alto. Até sugeriu-se um nome para o mesmo: pico de Cunhambebe, o grande líder dos tupinambás e dos tamoios na época do descobrimento do Brasil. Os mapas atuais foram feitos em 1976 pelo exército com o IBGE, com altímetros menos precisos que os atuais GPSs. A conclusão disso tudo foi que no início de 2014 todos os 3 grupos, por assim dizer, se uniram para essa expedição e obtivemos apoio oficial do INEA e do PEIG (Parque Estadual da Ilha Grande) que nos cedeu até guardas florestais para nos ajudar na missão. Éramos um grupo bem heterogêneo e diverso, com mais de 10 membros, e por vários motivos não conseguimos avançar pelo rio e nem pelo mato, como deveríamos. As duas tentativas posteriores também não nos levaram a Pedra d’Água, contudo identificamos uma trilha abandonada, talvez aquela antiga, e que era usada por caçadores. Com vários quilômetros ela alcançava a altitude dos 800 metros, mais perto do pico, pelo lado do Saco do Céu, e ela poderia ser a rota de descida da serra.

As pesquisas de campo, fizemos pelo lado da Parnaioca, subindo o rio Parnaioca por cerca de 2km, ou pouco mais. É uma subida tranquila pelas margens, frequentemente trocando de margem pelas águas, transpondo arvores caídas, subindo pedras de rio, etc. Subimos facilmente sem cargueira. Esse rio tem aproximadamente 4,5km de extensão e sua nascente está perto do pico da Pedra d’Água. Aliás, alí nascem 4 dos principais rios da Ilha Grande: o rio da Parnaioca, o rio de Dois Rios, o rio da Reserva Biológica e o rio Perequê do Saco do Céu. Existem relatos (ou lendas) de que no alto da serra do Papagaio existe uma pequena lagoa. Dizem que também tem uma área cheia de orquídeas selvagens, apelidada de orquidário. Alguns comentam que existe uma caverna ou gruta profunda que “venta”. Eu não confirmo isso, somente me contaram. Soubemos que a UERJ fez trabalho de campo no alto da Pedra d’Água e conhecemos o guia que os levou. Chamado de seu Júlio, era um caçador de presos fugidios no tempo do presídio e eles iam por outro caminho.

Essa travessia latitudinal tem em torno de 17 km de extensão, sendo que em 4,5km a partir da praia da Parnaioca estaremos no alto da Serra do Papagaio. Então, teremos de atravessá-la e alcançar a saída pelo outro lado, chegando até a trilha antiga de caçadores. Desse ponto em diante vamos descer por uma trilha fechada, que lembra um pouco a trilha de Lopes Mendes para o Caxadaço, um pouco mais fechada. No alto da Serra do Papagaio, pelas fotos aéreas, do satélite e de helicóptero com teleobjetivas, identificamos um enorme obstáculo, um desabamento que possivelmente teremos de transpor. Deve ter ocorrido na época do desabamento do Bananal e as plantas já o cobriram em parte. Mas existem umas pedras enormes aparecendo na terra sem plantas (fotos de 2014). Lembra um pouco a travessia do desabamento da cachoeira superior do Veado na Serra da Bocainaa, onde nosso coração bate mais forte.

De qualquer forma, acho que podemos transpor esses e outros obstáculos do tipo. Acredito que encontremos penhascos e seja preciso contorná-los, descê-los ou subí-los. Seguir o leito dos rios é muito fácil para avançar (para mim é) mas as vezes tem trechos íngremes e temos de contornar pela floresta. Na expedição passada, alguns não conseguiam caminhar bem pelas pedras dos rios com o receio de escorregar. Uma bota antiderrapante e dois bastões de caminhada nos transformam num quadrúpede.

De todas as três opções, creio que a travessia latitudinal é de longe a mais complexa, instigante e difícil. No alto da Parnaioca existiu uma grande fazenda nos séculos passados, com milhares de escravos. Foi um engenho de cana de açúcar e depois passou para a plantação de café. Existem muitas ruínas da casa grande e das senzalas, bem como de uma capela. Dizem haver um sino de metal enorme caído por lá, além de objetos antigos de metal, panelas, etc., cobertos pela floresta. Não tenho a localização exata dela mas está em algum platô pela montanha, não muito longe do local chamado de Bocaina dos Escravos. Toda essa floresta foi recomposta em um século de presídio, pois antes eram plantações. Devemos cruzar com muitos animais e cobras. Numa travessia assim, é necessário o uso de perneiras anti-cobra, para maior proteção.

Não é seguro de encontrar lugar para montar todas as barracas e por isso é prudente ter uma rede de selva. As vezes no melhor local (perto da fonte de água) só há lugar para uma ou duas barracas, como na expedição passada. Temos de ir auto-suficientes em tudo. Estaremos parte do tempo totalmente isolados, mas no alto das montanhas com visada ao continente devemos encontrar sinal de celular e internet.

Pelo caminho existem muitos lugares para tomar banho, nos rios Parnaioca e Perequê. Há cachoeiras e poços. O sucesso dessa travessia depende de todos entenderem e conhecerem o local o melhor possível, analisando os mapas do Google, o mapa topográfico, o mapa hídrico e outros, para escolher o melhor caminho.

E, importante, nesta trilha NÃO PASSAMOS pela reserva biológica, local de entrada não permitida.

2ª parte: as tentativas

3ª parte: a conclusão

4ª parte: desdobramentos

Sobre o autor deste texto