Compartilhar:
A Serra Fina é um maciço de montanhas que faz parte da Serra da Mantiqueira, tal como o maciço de Itatiaia, e reúne algumas das mais altas montanhas do Brasil com uma trilha que cruza seus cumes e cristas, numa altitude média de 2400m até quase 2800m no ponto mais alto, a Pedra da Mina (2798m), 4ª montanha mais alta do Brasil pela últimas medições.
Ganhou esse nome pois quase sempre se caminha por uma trilha muito estreita na crista das montanhas, acima das nuvens e com temperaturas próximas ou abaixo de zero. A travessia clássica é de 4 dias e 3 noites, mas pode ser feita em menos tempo.
A preparação começou há vários meses pois a Serra Fina ganhou a fama de ser o trekking mais difícil do Brasil, sendo totalmente dependente das condições climáticas, com poucas fontes de água, muitas subidas e descidas íngremes que totalizam mais de 3 mil metros em cada sentido, com cerca de 30km caminhando-se sobre montanhas, pedras, florestas, muito frio à noite, calor e sol forte de dia, um lugar isolado e sem apoio de nenhum tipo, onde temos de ir levando a casa e a comida, além de 5 litros de água em média.
Subi inúmeras vezes do Cosme Velho ao Corcovado para treinar. Estudei muitos relatos e vídeos, fizemos uma estratégia e o plano B, caso algo desse errado. Reunimos amigos e amigas, e marcamos o feriado de Corpus Christi para subir a montanha.
Fomos de carro até Passa Quatro, MG, onde contratamos o transporte 4×4 para nos levar até a Toca do Lobo via uma estradinha de terra e depois o resgate no município de Itamonte, na BR-354, perto da Garganta do Registro.
Como a lei de Murphy é real e se algo pode dar errado, vai dar, deu… Saímos muito tarde do Rio e chegamos na Toca do Lobo 2h da madrugada, ao invés das 23h, o que nos permitiria dormir antes do trekking. Com tudo atrasado, resolvemos começar de noite, com a lua cheia, e as 3h20 iniciamos a subida íngreme sem dormir.
O ânimo era grande e a lua nos iluminava o caminho. Vimos o alvorecer e os primeiros raios de sol sobre as nuvens. Foi espetacular e árduo! Chegamos de tarde, bem cansados, aos 2491m no alto do pico do Capim Amarelo, numa vista deslumbrante, onde logo depois de uma descida escorregadia de mais de 100m pelo bambuzal, procuramos local para dormir no meio de capinzais de quase 2 metros de altura.
Como era um feriadão, quase todos os locais de acampamento já estavam cheios, com centenas de montanhistas além das agências que se antecipam ocupando os melhores locais para seus clientes.
Acordamos muito cedo e havia gelo no sobre-teto de algumas barracas. Depois do café da manhã partimos para o próximo destino, a Pedra da Mina.
Montanha após montanha, entrando pelos matagais, chegamos nela ainda de dia mas com as nuvens já encobrindo e o frio e vento aumentando, e nenhuma visibilidade. Como não havia lugar para acampar no cume descemos pelo outro lado para um local mais protegido para dormir e jantar, sem antes deixar o registro escrito no livro do cume, que fica guardado numa caixa metálica.
Foi mais uma noite muito fria e dormimos cedo pois o destino seguinte seria o Pico dos Três Estados (2665m). No terceiro dia passamos pelo vale do Ruah, uma floresta de enormes capinzais cortantes e pontudos (Cortaderia sp) num solo negro e parte pantanoso, onde encontramos a nossa última fonte de água até a tarde do dia seguinte.
Por recomendação de outro montanhista, pernoitamos num bambuzal antes do pico dos 3 Estados, protegidos do vento para acordar as 3h e iniciar a subida ao cume ainda de noite e ver o amanhecer na última noite. Muitos fizeram como nós e outros já estavam acampados no cume coberto de capins altos.
Nesse dia senti o maior frio de toda a travessia, com as mãos semi-congeladas e luvas rasgadas pelas plantas, temendo entrar em hipotermia ficamos fotografando o belíssimo nascer do sol atrás do maciço de Itatiaia, do pico das Agulhas Negras e das Prateleiras.
Dali em diante seria a longa descida até a BR-354, onde estaria nos esperando nosso resgate. Haviam dezenas de montanhistas, todos famintos, esperando o mesmo resgate que foi insuficiente, e tivemos de buscar os carros com parte do grupo esperando.
Hoje, segundo dia seguinte ao retorno, os músculos ainda estão um pouco doloridos, algumas bolhas em carne viva nos pés já estão fechando, cortes nos dedos e nas pernas cicatrizando, mas a sensação de estar de corpo limpo após 4 dias sem banho e com a mesma roupa, e de acordar numa cama sem sentir a temperatura abaixo de zero… é mesmo uma sensação de alívio, mas também de algo que aconteceu muito forte e intenso, que foi fugaz aquela eternidade de 4 dias e 3 noites, e ainda muito recentes as marcas deixadas de uma tão distante realidade em relação ao nosso quotidiano, que nos faz sentir uma perda e saudade ❤de cada momento, de cada desafio, de cada sofrimento e alegria, de cada vista dos magníficos cenários naturais que nunca veremos iguais em outro lugar, e com a sensação de superação e vitória, há um desejo incipiente que clama: quero voltar!
É uma aventura para ser feita cuidadosamente e onde nada deve dar errado pois estamos a todo instante vivendo nosso limite e superação, seja caminhando ou escalaminhando perto de abismos e ribanceiras, ou cruzando labirintos em enormes matagais cujas folhas finas, resistentes e afiadas cortam e espetam sangrando nossa carne, e chegam até 2 metros de altura fazendo-nos desaparecer por inteiro dentro deles, ou quando caminhamos na floresta que parece um sem fim de bambuzais que nos enroscam arranhando o tempo todo, rasgando nossas roupas como que querendo impedir nossa passagem, ou quando uma nuvem surge em instantes e cobre tudo e de repente nada mais vemos ou sentimos, além do frio abaixo de zero e o vento gélido e cortante…
É tudo parte de uma belíssima natureza, que é hostil somente se não estivermos preparados. Mas, acima de tudo, é maravilhosa em tudo que nos apresenta.☺ Essa é um pouco da emoção sentida ao fazer a travessia da Serra Fina, caminhando quilômetros somente pelas cristas e cumes, de montanha após montanha, mais de 20 entre montanhas, morros e morretes, das mais altas da Serra da Mantiqueira, incluindo duas das mais altas do Brasil, o pico da Pedra da Mina e o pico dos Três Estados. Talvez seja para poucos mas com certeza pode ser para muitos ou para todos os que se prepararem adequadamente.
Agora estou certo de que não é a mais difícil do Brasil, mas uma das que exige muito planejamento e preparação. Há, inclusive, a possibilidade de contratar um “sherpa”, um carregador que leva tudo para vc caminhar bem leve ao invés dos quase 18 quilos que tivemos de levar cada um.
Vimos, ao caminhar, de um lado o maciço de Itatiaia com as Prateleiras e o Pico das Agulhas Negras, do outro o pico dos Marins e o pico/morro do Couto. E, no outro lado, o vale do Paraíba com suas cidades e a represa do Funil, com a majestosa Serra da Bocaina em frente, a Pedra do Frade e o Pico do Tira Chapéu e, em sua continuação, a Serra do Mar. Tudo desde acima das nuvens, alturas que chegam até os 2798 metros.
Companheiras e companheiros de caminhada, valeu!!! Obrigado a todos vocês por compartilharem estes momentos, mesmo que do grupo inicial alguns não tenham podido ir. Alexandre Barreiros, Ana Paula, André Serrano, Camila Coubelle, Cíntia Alexandre Rezende, Daniel Vieira Ramos, José de Alencar, Leonardo Lima, Luciana, Lúcio Lima.
Post original: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.10206976004977215&type=3



















Outros artigos e relatos
Minha primeira trilha da Serra da Bocaina: a Trilha do Ouro
Petrô-Terê em 1 dia: caminhando solo entre as nuvens
Portais de Hércules, uma trilha desafiadora